sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Amor



Quero pousar os meus lábios
aflitos de desejo
nos teus lábios de seda pura,
afastar com isso toda a tristeza
e dissolver todos os traços
de amargura.
.
Quero desenhar-te no silêncio
os olhos brilhantes cheios de lágrimas que choro
quando não estás,
para que na água desse mar revolto
o barco que flutua na tua voz
me sussurre ao ouvido
o amor eterno...
.
Quero tocar a tua pele sedosa,
acariciar teu rosto de menina perdida
que busca o conforto
de um abraço protector,
libertando as sombras
envolvidas na alma...
.
Quero dizer-te que és a princesa dos meus sonhos,
a claridade que sempre procurei
para iluminar meu mundo
feito de escuridão...
.
Quero beijar-te as pálpebras,
morder-te com uma carícia
esse sorriso de estrelas
rompendo na minha carne:
incendiado-a,
tornando-a volátil,
apaixonada;
onde o calor dilata os corpos,
onde a chama é um sismo arrebatador
que me faz tremer...
.
Quero sentir-te:
doce,divina, ansiosa.
Ansiosa de saudade
de entrelaçar os dedos nos meus...
.
O luar pertence-nos
onde só nós sabemos.
Secretamente somos apenas
uma alma;
secretamente viajo nos teus cabelos
e aconchego-te num abraço...
O teu perfume seduz-me...
.
Quero dizer-te
que não és anjo,nem uma cor.
És antes a deusa
enraizada no mais íntimo
espaço do meu coraçao!
Pintas no meu sangue
com uma paleta de cores vibrantes
o arco-íris

que me arrepia os sentidos...
.
Quero dizer-te que tenho medo.
Medo avassalador de te perder.
Medo que deixes de sentir.
Que desistas de mim.
Medo de mergulhar na solidão,
olhar o horizonte

e não estares aqui.
Medo de dizer-te a plenitude
daquilo que és para mim,
tal é o pânico

dos meus olhos em cegarem
com a tua ausência...
.
Quero dizer-te
que sonho o instante
em que poderei todas as noites
receber-te
no aconchego do meu peito,
ajeitar a almofada,
sentir a brisa das noites,
puxar o lençol até ao queixo:
serenar-te.
.
Cantar-te sem nada dizer
as notas que ecoam em mim
por te ter do meu lado.
Ver-te dormir.
E dormir também.
Acordar com os lábios molhados
na tua testa e ver-te sorrir
ao abrires as pálpebras...
.
Quero dizer-te que o mundo

é pequeno
quando o comparo
com o que sinto por ti.
Que o céu

é um grão de areia minúsculo
quando voo na tua mente...
que o universo é uma simples letra
quando escrevo universos
infinitamente...
.
Quero dizer-te
que a ternura com que te sinto
é mais que seda ou algodão.
É mais que sonho ou ilusão...
é a simples, vasta e profunda
emoção...
.
Quero dizer-te amor...
Que o que sinto por ti
quando suspiro
é um tesouro de valor incalculável...
Podia raptar-te
e nunca pediria um resgate:
nada no mundo poderia

susbtituir-te
nem fazer deixar de adorar-te...
.
Quero dizer-te
que há um sítio ainda mais escuro
onde posso sempre levar-te,
pois tuas pupilas são Vénus que me guiam...
.
Quero dizer-te
que sou uma estação
que te recebe a todo o instante
e onde o comboio que parte
é sempre íntimo, a dois...
.

Quero dizer-te que para mim
és tudo.
Sem ti sou um estilhaço de espuma no vento,
pouco ou nada.
Diz-me, diz-me suavemente
se para sempre queres ser amada...
.
Que este amor
é flor que cresce, cresce cresce...
e nunca vai cansar
de se elevar...
.
Quero dizer-te
que por entre as cinzas
de toda a dor,por entre os escombros
de toda a angústia e desespero,
renasci.
Por entre toda a desilusão,
toda a mágoa e claustrofobia,
toda a bruma imensa por onde me perdi,
me fizeste encontrar...
.
Quero dizer-te
que não vou desistir de ti.
Que não vou deixar de sentir.
Que és a princesa real, a minha alma....
.
Quero dizer-te
que não há bactéria
que me derrube
nem soluço que me afogue...
.
Quero dizer-te
que o coração
dentro do meu peito
bate no teu corpo
mesmo sem saberes...
que estás na minha pele
mesmo sem saberes...
que preciso de ti!.
.
Quero dizer-te
que as palavras não conseguem explicar-te
o que não é possível
de explicar...
.
E assim, grito baixinho
que hão-de sair do caminho
as muralhas que nos separam.
Que sou um guerreiro
que não sabe o significado da palavra desistir
quando de trata do amor
mais profundo...
.
Sou um guerreiro que luta,
que lutará...
O príncipe dando-te a mão
na mais sublime das manhãs
ou na mais amarga das noites,
porque só assim se completam
duas partes de um mesmo
sentimento...
Quero dizer-te
que nunca estarás só.
Que és tudo, sou tudo,somos tudo.
E seremos para a eternidade mais que tudo:
se as nossas lágrimas de luz
forem iguais...
.
A lua está redonda,
o coração corre veloz
e a tinta no papel fica irregular.
Ouço os grilos.
Tenho a certeza que sabem
a saudade que estou a sentir.
Num segundo
calam-se quando juro,
acho que
parei de respirar...
.
Agora respiro fundo,
escrevo-me.Escrevo-te.
Desenho-nos...
És tudo aquilo
que sempre sonhei.
Encontrei-te

e és mais do que apenas a minha alma...
.
Por entre a chuva torrencial
que se abate neste momento
nos meus olhos...
tenho frio.
Tenho muito frio
neste caminho onde
encontrei a doçura da tua boca
no primeiro beijo que trocámos...
Tremo gelado.
Medo e frio,
frio e medo.
.
Queria tanto ter-te aqui.
E olhos são rios.
Preciso de ti...
Por entre a chuva que continua a cair
nesta noite fria
olho o céu, fecho os olhos
e eu apesar de invisível, onde estás,
olho para ti...
.
É o teu beijo que me arrepia
na nuca,
o teu abraço quente
que me torna mais tranquilo...
.
Não há disfarces.
Desejo a secreta ternura
e quando choras
dou-te a mão e estarei sempre contigo...
.
Crescem rosas nas ondas
o piano toca maravilhosamente
com a brisa marítima,
o fôlego que se escapa...
.
O tempo nasce,
a esperança corre veloz,
os teus olhos
são dois lagos de marfim
círculos húmidos de terra fértil
onde posso plantar a flor mais bela...
.
Construo no peito
uma casa segura para ti.
Deixo que as estrelas confidentes
amordacem as mágoas
e a penumbra se dilua
no eclipse da tua pele...
.
Entrego-me a ti,
não fujo,
preencho o imenso vazio
para que comigo
tudo possa fazer sentido...
.
Grito ao mundo este amor imenso,
sem fim,
isto que sinto
impossível de conter no peito,
este querer-te tanto tanto tanto...
de sentir por ti
tanto tanto amor...
.
Quero dizer-te.
.
Então há um brisa que te toca
e um a voz que te sussurra ao ouvido...
Quero dizer-te...
E digo:
-
- Amo-te!
-
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segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Quero...




Quero destruir os traços de ternura ausente,
folhear os livros incolores
e gravar nas suas páginas os teus olhos
temperados de saborosos frutos cor de rubi.
.
Quero essencialmente travar praças vazias,
mares enraivecidos nos poros frágeis do teu corpo;
dar primazia às emoções ferventes
de transferir palavras pela língua dos gestos.
.
Quero tomar os teus braços de assalto,
arrombar as portas com teias de aranha
seladas no teu peito perante os fantasmas da dor
ou as esperanças frias de adormecer com conforto.
.
Quero não ter de querer-te uma e outra vez.
Antes querer-te sempre, e com a claridade
da sombra dos meus dedos tactear o teu sorriso,
num contínuo movimento de carícias infernais, doces.
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terça-feira, 1 de setembro de 2009

O que te peço...





Ser como comboio ágil numa nuvem de cristal,
abrir os olhos na manhã frágil em carris feitos de sal...
Ser como a carruagem vadia numa linha feita de papel
com o leve toque de maresia dissolvida em cores de pastel...
.
Ser como a locomotiva escondida,
a que bate no peito a cada segundo,
que por muito que fique perdida...
fará sempre parte do mundo!
.
Ser como a estação de partida
ou o apeadeiro para um regresso...
que sejas sempre parte da minha vida
é o único trajecto que te peço!
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sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Embora soubesse



Embora soubesse que não pertencias a ninguém
fiquei à tua espera atrás do muro de pedra que nos dividia,
pensando, evasivamente perplexo, que chegasses devagar
na pontas dos dedos, sapatos dobrados, saia de xita
a fazer lembrar a cor dos navios naufragados nos meus sonhos;
navios de âncoras polegares, de janelas anelares,
proas de indicador, sereno balanço à linha recta do horizonte...

Não vieste naquela tarde correr sobre o campo verdejante,
nem tão pouco os teus olhos se puseram a navegar nos meus
como eu esperava, quebrando as correntes frias
que me prendiam ao fundo. A mais íntima sensação de desejo
impossível de descrever, veio. Impraticável. Delirante...

Chamei as aves pousadas na cerca do outro lado
para pousarem na minha mão esquerda, cega para as palavras,
mas infinitamente soberba na forma de sonhar o silêncio.
E então o esvoaçar, a minha metamorfose interiorfeita
com uma plumagem suave como a tua pele doce...

Apareci a voar à tua janela.
Sorriste-me da porta entreaberto do duche,
onde o teu corpo nu recebeu a carícia da água quente
e o vapor do teu sorriso me embaraçou os lábios
desequilibrando-me e fazendo-me cair no jardim,
quando a tua coxa já se via ao pousares o pé no tapete azul...

Embora soubesse que não pertencias a ninguém: amava-te.
Mesmo sabendo que te imaginara nos meus sonhos: queria-te.
E porque eu ainda tinha coração e nunca mais te vi: perdi-o...
As aves levantaram-me em peso e levaram-me para lá do muro.
As asas caíram-me como cabelos brancos enfraquecidos pelo tempo.
Ambos sabíamos que não irias voltar ao muro, juntar os cotovelos
e mergulhar o queixo sobre as palmas das mãos, para me observares

com a tua meiga forma de olhar..Então parti.
Atravessei descalço o mundo inteiro e voltei.
Ao mesmo muro, à mesma espera.
Embora soubesse que não pertencias a ninguém,
e tivesse a certeza que não vinhas,
naquele dia apareceste com duas maçãs no bolso
de um belo vestido violeta-amanhecer, na claridade de um beijo;
Sorriste-me, abraçaste-me
e puseste a maçã vermelha na minha mão...
As aves voltaram a pousar em meu redor.
Tu não estavas. Apenas as maçãs inteiras sobre o muro, e eu.
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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Correndo para o abismo




Correndo pela cidade sem ter a mínima ideia de como parar ou voltar atrás. Foi assim que começou a minha viagem surpreendente. Não sabia porque corria, mas ia cada vez mais rápido e com menos tracção. Motos por todo o lado, lixo espanhado pelo chão, e até um tanque de guerra pairava sobre um quintal, que antes tivera uma bela horta. Chocava com as pessoas que passavam por mim: o merceeiro da esquina que usava um avental cheio de flores, a peixeira ambulante, o vendedor de enganos, o profeta das ruas. Mas a velocidade aumentava cada vez mais. Eu não mandava nos meus membros, nem na minha mente. Estava posto ali para correr sem saber porquê. Sem ter tempo para parar e beber um café cremoso ou para respirar calmamente a brisa junto ao miradouro. Corria, corria como nunca correra até então. A boca parecia secar com sede, mas logo uma chuva cupiosa se abateu sobre mim. Da pureza da chuva descobri o aroma da água. Passaram muitos quilómetros, muitas avenidas, curvas e esquinas, muitas pessoas com diferentes sentimentos. Mas ninguém corria como eu. Não era dia de maratona, não era ladrão a fugir da polícia. Que era então? O futuro foi-se estreitando, o passado foi pesando, acumulando-se nas falésias dos passos. Tudo terminou num ápice: Um subida íngreme, duas pernas cansadas, um coração desolado... e uma coragem perdida. O fim da viagem para um soldado inquieto.
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