segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Quero...




Quero destruir os traços de ternura ausente,
folhear os livros incolores
e gravar nas suas páginas os teus olhos
temperados de saborosos frutos cor de rubi.
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Quero essencialmente travar praças vazias,
mares enraivecidos nos poros frágeis do teu corpo;
dar primazia às emoções ferventes
de transferir palavras pela língua dos gestos.
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Quero tomar os teus braços de assalto,
arrombar as portas com teias de aranha
seladas no teu peito perante os fantasmas da dor
ou as esperanças frias de adormecer com conforto.
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Quero não ter de querer-te uma e outra vez.
Antes querer-te sempre, e com a claridade
da sombra dos meus dedos tactear o teu sorriso,
num contínuo movimento de carícias infernais, doces.
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terça-feira, 1 de setembro de 2009

O que te peço...





Ser como comboio ágil numa nuvem de cristal,
abrir os olhos na manhã frágil em carris feitos de sal...
Ser como a carruagem vadia numa linha feita de papel
com o leve toque de maresia dissolvida em cores de pastel...
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Ser como a locomotiva escondida,
a que bate no peito a cada segundo,
que por muito que fique perdida...
fará sempre parte do mundo!
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Ser como a estação de partida
ou o apeadeiro para um regresso...
que sejas sempre parte da minha vida
é o único trajecto que te peço!
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sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Embora soubesse



Embora soubesse que não pertencias a ninguém
fiquei à tua espera atrás do muro de pedra que nos dividia,
pensando, evasivamente perplexo, que chegasses devagar
na pontas dos dedos, sapatos dobrados, saia de xita
a fazer lembrar a cor dos navios naufragados nos meus sonhos;
navios de âncoras polegares, de janelas anelares,
proas de indicador, sereno balanço à linha recta do horizonte...

Não vieste naquela tarde correr sobre o campo verdejante,
nem tão pouco os teus olhos se puseram a navegar nos meus
como eu esperava, quebrando as correntes frias
que me prendiam ao fundo. A mais íntima sensação de desejo
impossível de descrever, veio. Impraticável. Delirante...

Chamei as aves pousadas na cerca do outro lado
para pousarem na minha mão esquerda, cega para as palavras,
mas infinitamente soberba na forma de sonhar o silêncio.
E então o esvoaçar, a minha metamorfose interiorfeita
com uma plumagem suave como a tua pele doce...

Apareci a voar à tua janela.
Sorriste-me da porta entreaberto do duche,
onde o teu corpo nu recebeu a carícia da água quente
e o vapor do teu sorriso me embaraçou os lábios
desequilibrando-me e fazendo-me cair no jardim,
quando a tua coxa já se via ao pousares o pé no tapete azul...

Embora soubesse que não pertencias a ninguém: amava-te.
Mesmo sabendo que te imaginara nos meus sonhos: queria-te.
E porque eu ainda tinha coração e nunca mais te vi: perdi-o...
As aves levantaram-me em peso e levaram-me para lá do muro.
As asas caíram-me como cabelos brancos enfraquecidos pelo tempo.
Ambos sabíamos que não irias voltar ao muro, juntar os cotovelos
e mergulhar o queixo sobre as palmas das mãos, para me observares

com a tua meiga forma de olhar..Então parti.
Atravessei descalço o mundo inteiro e voltei.
Ao mesmo muro, à mesma espera.
Embora soubesse que não pertencias a ninguém,
e tivesse a certeza que não vinhas,
naquele dia apareceste com duas maçãs no bolso
de um belo vestido violeta-amanhecer, na claridade de um beijo;
Sorriste-me, abraçaste-me
e puseste a maçã vermelha na minha mão...
As aves voltaram a pousar em meu redor.
Tu não estavas. Apenas as maçãs inteiras sobre o muro, e eu.
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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Correndo para o abismo




Correndo pela cidade sem ter a mínima ideia de como parar ou voltar atrás. Foi assim que começou a minha viagem surpreendente. Não sabia porque corria, mas ia cada vez mais rápido e com menos tracção. Motos por todo o lado, lixo espanhado pelo chão, e até um tanque de guerra pairava sobre um quintal, que antes tivera uma bela horta. Chocava com as pessoas que passavam por mim: o merceeiro da esquina que usava um avental cheio de flores, a peixeira ambulante, o vendedor de enganos, o profeta das ruas. Mas a velocidade aumentava cada vez mais. Eu não mandava nos meus membros, nem na minha mente. Estava posto ali para correr sem saber porquê. Sem ter tempo para parar e beber um café cremoso ou para respirar calmamente a brisa junto ao miradouro. Corria, corria como nunca correra até então. A boca parecia secar com sede, mas logo uma chuva cupiosa se abateu sobre mim. Da pureza da chuva descobri o aroma da água. Passaram muitos quilómetros, muitas avenidas, curvas e esquinas, muitas pessoas com diferentes sentimentos. Mas ninguém corria como eu. Não era dia de maratona, não era ladrão a fugir da polícia. Que era então? O futuro foi-se estreitando, o passado foi pesando, acumulando-se nas falésias dos passos. Tudo terminou num ápice: Um subida íngreme, duas pernas cansadas, um coração desolado... e uma coragem perdida. O fim da viagem para um soldado inquieto.
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A Última Viagem



Côncava esperança,
as velhas margens da tua idade,
as feridas nas mãos,
o sol que queima debaixo das unhas
o verde líquido da tua pele na pele selvagem de uma rã..
O pântano quadrado,os olhos dispersos na poeira;
lágrimas triangulares entre gritos...
Uma outra noite feita de ânsia,
o espectro da inocência,
trilho de inconformismo variável...
O infinito em pedaços,
a última viagem...
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